12
Fev 09
publicado por aquiagorasempre, às 09:25link do post | comentar

VIDÊNCIA

Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!

Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa

Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro

Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.

10
Fev 09
publicado por aquiagorasempre, às 10:50link do post | comentar

HELENA

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levavam linho, ungüento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pêlo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram.

De Lucernário (1993)

09
Fev 09
publicado por aquiagorasempre, às 09:54link do post | comentar


Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

03
Fev 09
publicado por aquiagorasempre, às 10:07link do post | comentar

Aqueles oceanos de dor que me arrastaram para longe
certamente não me deixaram uma marca
de feliz fortuna
Ah flores,dias de infelicidade!

Mas quando vejo as mil faces desse dia
ao redor de mim,
meus passos ressoam com clareza.
há esses espelhos em que nos miramos

Dias de quase felicidade:o que queremos vive
e cresce em nós.
A chave das dores ,nós a agarramos
num piscar de olhos.
Tudo é agora,a benfazeja luz da madrugada
nos saúda,mais uma vez.

O que queremos é o toque real,como
aqueles belos filmes que só nos sonhos
nos são dado ver.

(jamesPenido)

02
Fev 09
publicado por aquiagorasempre, às 09:47link do post | comentar

Passou?

Minúsculas eternidades

deglutidas por mínimos relógios

ressoam na mente cavernosa


Não,ninguém morreu,ninguém foi infeliz.

A mão-a tua mão,nossas mãos-

rugosas têm o antigo calor

de quando éramos vivos.Éramos?


Hoje somos mais vivos do que nunca.

Mentira,estarmos sós.

Nada,que eu sinta,passa realmente.

É tudo ilusão de ter passado.

(Carlos Drummond de Andrade)


publicado por aquiagorasempre, às 09:26link do post | comentar

Cachoeiras transbordam
ao longo das estradas
Mil marcas caminhando com os dias.
Ouço um refrão de rap baixo.

Na solidão de um ônibus
que passa roçando árvores,
com barulho de corredeira e
o dia que se esvai devagar,
Eu digo:sim.Agora sei
como tudo está difícil e cortante.
Sinceros medos são veredas
numa terra onde ninguém vai.

Uma moça fala quase sussurrando,
outra vai imóvel,flores na blusa;
tudo se sacode numa curva.
E essa claridade que tudo envolve.
Ah luz sinuosa,crepe
da China enrolado no banco de trás,
voz insinuada numa fresta de janela.
Rios se vão,separando verdes,galhos
se tocam,folhas brilhantes de espuma,
clara luz é um rosto aberto.

E vamos continuar a disputar os conceitos,
rabiscar os poemas,tirar da jaula o abutre,
parar no entretretrecho,
voz presa,pessoas sentadas
num ônibus do Brasil.

Vem chegando o escuro
mas há um pisca-pisca ondulante.
Ainda passarinhos,ainda chavões,
jargões,lugares comuns.


Entreve-se uma cachoeira,
espiral de pedra,brancura da água
ao longe.
O rádio toca uma toada recitada.
Achados e perdidos,correio sentimental.
Sinuosismos?Quero descobrir agora outros sabores.

(James Penido)

31
Jan 09
publicado por aquiagorasempre, às 14:54link do post | comentar
Talvez Virginia
(Jim Anotsu 15 / 09 / 2008)

Jenny e Virginia são garotas anacrônicas,
ficam belas de rosa,mas consideram preto substancialmente melhor.
As garotas nem sempre fazem as coisas certas,mas quando cometem as erradas,
isso é acidentalmente de propósito.

Oh,não!, Jenny; fizemos isso de novo,
com toda a certeza deveríamos nos envergonhar,
e não nos sentirmos tão bem.
É meio tragicômico; uma dramédia para ser sincera,
isso que chamamos de cotidiano trivial.

Um dia tão triste; espero que concorde; e está na minha mão. - somente
porque assim você o quer, senhorita! - Você já sabia da verdade antes mesmo
de vir. - Você precisa ser tão mal humorada ?! - É necessário ser tão desagradável,
ò minha querida ?

Perfumes com cheiro de jasmim;
devemos admitir que são bons nessa época do ano.
Sim, sei disso muito bem, fui eu quem lhe contou.
Não importa o que você diga,
ele sempre me dará o que mereço.
Precisamos de uma solução,
os lençóis estão rasgados!

Espero que se lembre, Virginia,da primeira vez em que nos separamos,
e tivemos que dividir as nossas coisas: o céu, o mar, as estrelas e tudo mais,
não quero passar por isso novamente.
Pelo que me lembro você ficou com o vermelho, que absolutamente é uma cor legal,
e só me sobrou o roxo, que para dizer a verdade é bem cafona!

Um dia muito bom, esse dia de hoje, mui melhor que essa ilusão de amanhã.
Ora, ora, ora; não ria, minha amada! Venha aqui. Dá-me um beijo de boa noite.
O céu está caindo, Adeus, vamos lá, somos imunes à gravidade.

Mas não é necessário nos sobressaltarmos, um chá é sempre e sempre uma boa trégua,
principalmente para duas velhas bicicletas como nós.
Acordem!, hoje é o resto de suas vidas...

30
Jan 09
publicado por aquiagorasempre, às 11:56link do post | comentar
Já era tarde
e cansaram-se as três de esperar.
Entraram,deixando o jardim ,
seco e escuro na noite.
Uma,enxugava os olhos,
outra,esfalfada,caindo no sofá
a última,trêmula,crispando as mãos

De esperar
juraram que jamais se cansariam.
Mas o jardim já agonizava,
a pintura da casa desaparecia
os móveis apodreciam,
tudo se desmanchava
lentamente


Um dia,uma olhou para as outras e disse
que não esperaria mais
porque se cansara e nada mais fazia sentido;
não havia solução.

Ainda ontem estavam lá no jardim,
de negro as duas,abismadas em esperar.
Pombos faziam ninhos no telhado.
O céu era de um azul intenso e ventava.

(James Penido)

28
Jan 09
publicado por aquiagorasempre, às 15:40link do post | comentar

NOÇÕES



Entre mim e mim,há vastidões bastantes

para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.

Cada lâmina arrisca um olhar,e investiga o elemento que a atinge.


Mas,nesta aventura do sonho exposto à correnteza,

só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram


Virei-me sobre a minha própria existência,e contemplei-a.

Minha virtude era essa errância por mares contraditórios,

e este abandono para além da felicidade e da beleza.


Ó meu Deus,isto é a minha alma:

qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,

como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

mais sobre mim
Agosto 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


pesquisar neste blog
 
tags

todas as tags

blogs SAPO