11
Abr 09
publicado por aquiagorasempre, às 12:02link do post

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas,pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco;e aves pairassem

no céu de chumbo,e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior,vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se a majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspecção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério,nos abismos.


Abriu-se em calma pura,e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter suado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos,em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mística das coisas.


(Carlos Drummond de Andrade)

Esse é um dos meus poemas favoritos de Drummond.
Wesley Viana a 11 de Abril de 2009 às 12:38

De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



mais sobre mim
Abril 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

12
15
18

19
24

28
30


pesquisar neste blog
 
tags

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO