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Meu Sonho (Cecília Meireles)

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar…
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar ?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar

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16
Fev 09
publicado por aquiagorasempre, às 09:29link do post | comentar

Foi quando saía do metrô,na estação da rua 47 com a quinta avenida,que viu o gigantesco outdoor.Uma moça loura e sorridente de maiô azul parada ao lado de uma piscina de água translúcida como numa pintura de David Hockney.A luz intensa de um verão impossível e imaginário cobria a grama,as árvores,o mar ao longe.Seu rosto levemente eslavo emanava a tranquilidade falsa dos que estão sempre felizes.os olhos muito azuis olhavam firme,num desafio em que havia alguma arrogância e uma ironia fina,como se fosse dizer-você nunca vai viver uma vida assim.
Parada na calçada,no meio da multidão quase compacta,das buzinas,do amarelo corruscante dos táxis,ficou olhando encantada a foto imensa.O painel tomava toda a lateral de um prédio falso rococó,cheio daquelas torrezinhas que são o charme e o ridículo de Nova York.Era ela.Era a sua foto,exposta para a cidade inteira(e porque não para o mundo?).O mundo da Vogue,Elle,Marie Claire,OG,L'Éternel,Mode.Um mundo de papel,de rotogravuras,.de dinheiro,do que sempre se quer e nunca se alcança.
De repente começou a rir perdidamente,num crescente sincopado.Cristo na cruz!Depois de tudo que passara,de todas as frustações e pequenos tormentos que por muitos anos tinham constituído sua vida,algo realmente estava acontecendo.
Uma onda de júbilo a envolvia quente,quente.Era aquela talvez,uma pequena amostra de alguma felicidade futura?Do tanque a Nova York não era mais ficção,nome de biografia fajuta,conto de fadas,mesa redonda do canal brega.Seus medos mais sinceros e por isso mesmo,mais profundamente enterrados,lentamente emergiam para sere mais uma vez enfrentados.O tempo das vacas magras,da carne roída até o osso,do lamber beirada de penico:todos os lugares comuns do anonimato e da pobreza se desvaneciam em sua mente.Porque o mundo existia de uma forma muito mais intensa e perturbadora,percebeu então.Estar no mundo e viver eram coisas muito distintas.
Não sabiam onde nascera,como era a casa em que vivera por muitos anos.Sórdido,agradável,pequeno,tranquilo,pobre-não eram só palavras?Queria provar a si mesma que tudo realmente passava,que as feridas da alma e do coraçao lentamente se fechavam.
Margarete,Iná,Dona sininha,Marquito:todos esses personagens de sua infância espectral de borralheira,agora moravamem um outro planeta.Aquele seu novo planeta de bolsas de dez mil dólarese edifícios de vidro fosco,ao mesmo tempo tão frio e tão quente,era onde deveria ter sempre vivido.Aquele fim de mundo do Paraná de onde viera,com suas casinhas de madeira que pouco a pouco se descoloriam com a chuva,era o lugar para onde nunca mais voltaria.Ela tinha certeza absoluta disso,porque muitto maior que sua ambição era seu horror ao passado.

publicado por aquiagorasempre, às 15:55link do post | comentar

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Pelo silêncio que a envolveu, por essa
aparente distância inatingida,
pela disposição de seus cabelos
arremessados sobre a noite escura:
pela imobilidade que começa
a afastá-la talvez da humana vida
provocando-nos o hábito de vê-la
entre estrelas do espaço e da loucura;

pelos pequenos astros e satélites
formando nos cabelos um diadema
a iluminar o seu formoso manto,

vós que julgais extinta Mira-Celi
observai neste mapa o vivo poema
que é a vida oculta dessa eterna infanta.



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Essa pavana é para uma defunta
infanta, bem-amada, ungida e santa,
e que foi encerrada num profundo
sepulcro recoberto pelos ramos

de salgueiros silvestres para nunca
ser retirada desse leito estranho
em que repousa ouvindo essa pavana
recomeçada sempre sem descanso,

sem consolo, através dos desenganos,
dos reveses e obstáculos da vida,
das ventanias que se insurgem contra

a chama inapagada, a eterna chama
que anima esta defunta infanta ungida
e bem-amada e para sempre santa.



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Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.

Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.

Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.

Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.

publicado por aquiagorasempre, às 10:25link do post | comentar | ver comentários (2)

Medo da Eternidade

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Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

LISPECTOR, Clarice. Medo da eternidade. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p. 446-8.

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