James, vou pular o comentário deste post (rs) para falar da beleza da Clarice Lispector. Era linda, né. E como escrevia! Aquela entrevista dela na Cultura, a última que ela deu, nos lança numa desolação só, né. Um olhar triste aparece ali, sem esconder nada. O José Castello tem um livro chamado Inventário das sombras, em que ele fala sobre suas entrevistas com autores sombrios ou arredios, outsiders, malucos (nem todos reunindo todas as categorias) como Clarice, José Cardoso Pires, Manoel de Barros, João Antonio, entre outros. O texto sobre a Clarice é belíssimo, que aliás, talvez sirva para o texto que você quer escrever sobre as cartas de Beauvoir, mas está com receio, inseguro (guardando as proporções entre ficção e crítica). Segue o começo do texto:
"Rio de Janeiro, novembro de 1974: aos vinte e três anos de idade, apenas começando minha carreira de jornalista, passo secretamente a rascunhar alguns textos de ficção. Exercícios penosos, em que avanço em ritmo vacilante, sem certeza do rumo que desejo seguir.
Há, nesse momento, um livro que não consigo parar de ler: A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Eu o descobri um dia, ao acaso, na estante de uma irmã. Comecei a leitura sem nenhuma convicção e logo esbarrei em seu espírito acidentado e aflitivo. Insisti. Não pude largá-lo mais.
Tentando unir as duas experiências, envio um dos pequenos textos que acabo de escrever, que não chega a ser mais que uma confissão, para o apartamento de Clarice Lispector, no Leme. Mando junto meu endereço e telefone, na esperança de que ela, um dia, venha a me responder. Os dias passam e desisto de esperar. Volto a G.H.
Vésperas do Natal: o telefone toca e uma voz arranhada, grave, se identifica: 'Clarice Lispectorrr', diz. Ela entra no assunto. 'Estou ligando para falar de teu conto', continua. A voz, antes vacilante, agora se torna mais firme. 'Só tenho uma coisa para dizer: você é um homem muito medrrroso', e os erres desse 'medrrroso' até hoje arranham minha memória. O silêncio ensurdecedor que se segue me faz acreditar que Clarice desligou o telefone sem ao menos se despedir. Mas logo sua voz ressurge: 'Você é muito medrrroso. E com medo ninguém consegue escrever'."
Grande abraço, James!
Gilberto G. Pereira a 8 de Abril de 2009 às 00:32

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