15
Jun 09
publicado por aquiagorasempre, às 08:47link do post | comentar | ver comentários (13) | |

Há escritores que buscam tentar desvendar,além das palavras,o intricado jogo de espelhos que é a sociedade humana.W(infred) G(eorg) Sebald,escritor alemão nascido em 1944 e falecido prematuramente em um acidente automobilístico em 2001,é um desses mestres que fazem um passeio cáustico pelas loucuras da história e seu encadeamento com nossas próprias vidas.
"Os anéis de Saturno"(1999),é, parafraseando o elogio do crítico do New York Times-"(...)como um sonho que você quer que dure para sempre"(...),ou do The Guardian-"(...)um dos mais notáveis e o mais sublime dos escritores europeus contemporâneos."O título,nada tem a ver com os anéis do planeta Saturno.Em dez capítulos,o narrador faz um passeio pela costa nordeste da Inglaterra,enquanto discorre sobre sua própria vida,a de amigos e passeia também por fatos (muitos deles ignominiosos)da história da humanidade,e por velhos palácios ingleses agora condenados à decadência.E é essa decadência mesma e também a transitoriedade da vida que perpassam o magnífico livro de Sebald.Passando pelo escritor anglo-polonês Joseph Conrad e sua viagem ao Congo do século XIX com os horrores da exploração colonial(de lá para cá parece que pouca coisa mudou),pela história da imperatriz chinesa Tz'u-hsi e sua fúria sanguinária pelo poder,Sebald entrelaça partes que nos mantém com uma ponta de esperança no trajeto humano pelo planeta.A vida do grande poeta inglês Algernon Charles Swinburne,o idílio entre Chateaubriand e Charlotte Ives e ainda Thomas Browne,perpassam a obra em momentos de grande beleza estilística(se é que os 'pós-modernos' me permitem usar essa palavra herética-beleza).O passeio pelas antigas casas senhoriais destruídas pelo tempo e pelo próprio fluir da vida humana,evoca um conceito que parece ser caro a Sebald-a transitoriedade de tudo,que no final das contas nos enobrece,muito mais do que nos enfraquece:tudo realmente passa,não só as pessoas,mas os lugares.
Sombras ilustres perpassam o texto de Sebald:Borges,Kafka,Thomas Browne,Swinburne,Conrad.As fotografias que supostamente ilustram o livro(uma do próprio Sebald),são como um truque irônico para os que buscam 'realismo' à moda antiga(ou atual?). Nessa obra prima dos nossos tempos o realismo não passa de um jogo,um pretexto para a discussão dos nossos próprios dilemas como espécie que se julga superior,da nossa própria vida feita de tantas contradições que se espelham na história e lançam tanto luz quanto sombra aos séculos.
Um dos mais belos e profundos livros(para tentar usar essas palavras tão surradas),que me foram dados ler nos últimos tempos.Uma daquelas obras que perduram dentro de nós por um longo tempo,e que às quais voltamos sempre.Como escreveu um leitor na primeira página do meu exemplar comprado em um sebo-"magnífico,inesquecível,grande obra".

15
Mar 09
publicado por aquiagorasempre, às 15:03link do post | comentar | |

Algernon Charles Swinburne,cujo período de vida coincidiu quase inteiramente com o da imperatriz viúva Tzu-hsi,nasceu em 5 de abril de 1837 como o mais velho dos seis filhos do almirante Charles Henry Swinburne e sua esposa Lady Henrietta,filha do terceiro conde de Ashburnham.As duas famílias vinham dos tempos remotos em que o Kublai khan erguera seu palácio e que Dunwich negociava com todos os países que então se atingiam pelo mar.Até onde podia se lembrar,os Swinburne e os Ashburnham tinham sido cortesãos do rei,guerreiros importantes e militares,senhores de imensas propriedades e viajantes desbravadores.Um tio-avô de Algernon Swinburne,general Robert Swinburne,curiosamente e,devemos supor,por causa de fortes inclinações ultramontanas,foi súdito de Sua Majestade Apostólica Real e Imperial e alcançou a posição de barão do Sagrado-Império Romano.Morreu governador de Milão,e seu filho ocupou até sua morte em avançada idade em 1907 o cargo de camareiro-mor do imperador Francisco José.Possivelmente essa forma extrema de catolicismo político nessa ala da família foi um primeiro sinal de decadência.Mas apesar disso perguntava-se como de linhagens tão vitais pudera nascer uma criatura sempre tão próxima de um colapso nervoso,paradoxo que os biógrafos de Swinburne,particularmente interessados na origem e hereditariedade,tentaram resolver até concordarem em designar o poeta de Atalanta como um fênonemo epigenético além de todas as probabilidades naturais,por assim dizer surgido do nada.Com efeito,já devido à sua aparência externa,Swinburne devia parecer inteiramente estranho à família.Muito baixinho,em todas as fases de seu desenvolvimento bem aquém das medidas normais,de corpo assustadoramente delicado,mesmo assim já em menino tinha uma cabeça singularmente grande,fora das dimensões normais,sobre um pescoço frágil e ombros caídos.Sua cabeça extraordinária,acentuada ainda por cabelos cor de fogo espetados e brilhantes ohos verdes,era,como descreve um contemporâneo dele,an object of amazement at Eton. Já no dia em que chegou à escola-no verão de 1849 Swinburne acabava de fazer doze anos-seu chapéu era o maior entre todos os chapéus de Eton.E um certo Lindo Myers,com quem mais tarde no outono de 1868 Swinburne atravessou o Canal da Mancha saindo de Le Havre,descreve como,tendo o chapéu de Swinburne sido arrancado pelo vento e lançado sobre a amurada,ao chegarem em Southampton só na terceira chapelaria conseguiram um chapéu que lhe servisse,e mesmo então,acrescenta Myers,fora preciso retirar a fita de couro e o forro.

Mas apesar de sua extrema desproporção física,desde cedo,especialmente desde que lera nos jornais sobre o ataque em Balaclava,Swinburne sonhara entrar em um regimento de cavalaria e morrer como beau sabreur em uma batalha igualmente louca.Ainda durante seus estudos em Oxford essa visão superava todas as outras idéias que pudesse ter do seu futuro,e só quando a esperança de morrer como herói fracassou definitivamente devido a seu corpo subdesenvolvido,ele se lançou de corpo e alma na literatura,e com isso talvez em uma forma não menos radical de autodestruição.Provavelmente Swinburne nem teria superado suas crises nervosas cada vez mais graves,se não se tivesse submetido aos cuidados de seu companheiro de vida Watts DuntonEste em breve cuidava de toda a correspondência,de todas as pequenas coisas que deixavam Swinburne constantemente em pânico,e assim garantiu por quase três décadas a sobrevida pálida do poeta.

Em 1879,depois de um ataque de nervos,Swinburne fora trazido mais morto que vivo em um chamado four-wheeler para Putney Hill a sudoeste de Londres,e lá,na modesta villa de subúrbio com a inscrição Nr.2 The Pines,os dois solteirões viveram a partir dali evitando qualquer irritação.O dia transcorria sempre segundo um plano estabelecido por Watts Dunton.Este comentando com certo orgulho a eficiência do sistema que imaginara,teria dito que swinburne always walks in the morning,writes in the afternoon and reads in the evening.And what is more,at meal times he eats lik a caterpillar and at night he sleeps like a dormouse.

De vez em quando pela tarde convidava-se alguém que desejasse ver o poeta miraculoso exilado no subúrbio.Sentavam-se então em três à mesa na sombria sala de jantar.Watts,surdo,dominava a conversa com voz retumbante enquanto Swinburne,como uma criança bem educada,devorava um enorme pedaço de carne com a cabeça baixada sobre o prato.Um dos convidados que na virada do século visitou Putney escreve que os dois velhos senhores lhe pareceram insetos estranhos vivendo em uma garrafa de Leiden.Prossegue dizendo que repetidas vezes olhando Swinburne tivera de pensar em um bicho-da-seda cor de cinza,Bombix Mori,seja pela maneira como devorava pedacinho a pedacinho a comida que lhe era apresentada,seja porque a toda hora despertava do meio-sono que o atacava depois da refeição,como que invadido de nova energia elétrica,e com mãos esvoaçantes como uma mariposa assustada esgueirava-se pela sua biblioteca subindo e descendo pelas pilhas de livros e escadinhas para pegar das prateleiras uma ou outra preciosidade.O entusiasmo que o dominava então manifestava-se nos comentários rapsódicos sobre seus poetas prediletos-Marlowe,Landor e Hugo-,mas não raro também sobre lembranças de sua infância na Isle of Whight e em Northumberland.Numa dessas ocasiões por exemplo,nesse estado de êxtase completo,ele teria recordado com em menino se sentara aos pés de sua tia Ashburnham,muito velha,enquanto ela lhe falava do primeiro grande baile a que fora em menina em companhia da mãe.Depois desse baile haviam percorrido muitos quilômetros por uma noite de inverno clara de neve e gelada,até que de repente a carruagem foi detida por um grupo de vultos escuros que estavam enterrando um suicida em uma encruzilhada.Anotando essa lembrança de mais de um século e meio atrás ,escreve o convidado também já morto há tempos,ele podia voltar a ver com toda a nitidez a horrenda cena noturna de Hogarth como a descrevera Swinburne naquela ocasião,e ao mesmo tempo podia ver o menininho de cabeça grande e cabelos de fogo em pé,erguendo as mãos em súplica e pedindo:tell me more,Aunt Ashburnham,please tell me more.
(De "Os Anéis de Saturno" ,tradução de Lya Luft,editora Record,2002)






mais sobre mim
Agosto 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


pesquisar neste blog
 
tags

todas as tags

blogs SAPO