19
Mai 09
publicado por aquiagorasempre, às 09:02link do post | comentar | ver comentários (10) | |

Em Santiago,havia um deão que cobiçava aprender a arte da magia.Ouviu dizer que Dom Illán,de Toledo,conhecia-a mais do que ninguém,e foi a Toledo procurá-lo.
No mesmo dia em que chegou,dirigiu-de à casa de Dom Illán e o encontrou lendo em um cômodo afastado.Este o recebeu com bondade e lhe pediu que adiasse o motivo de sua visita até depois de comerem.Mostrou-lhe o alojamento fresco e disse que sua vinda o alegrava muito.
Depois de comer,o deão contou a razão daquela visita e rogou que lhe ensinasse a ciência mágica.Dom Illán disse que adivinhava ser ele deão,homem de boa situação e belo futuro,por quem temia ser logo esquecido.O deão prometeu e assegurou que jamais esqueceria aquela mercê,e estaria sempre às suas ordens.Resolvido o assunto,explicou Dom Illán que as artes mágicas não se podiam aprender senão em lugar apartado,e tomando-o pela mão levou-o a um quarto contíguo ,em cujo soalho havia uma grande argola de ferro.Disse antes à criada,que preparasse perdizes para o jantar,porém que não as pusesse para assar senão quando lhe ordenassem..Juntos levantaram a argola e desceram por uma escada de pedra bem lavrada,até que ao deão pareceu terem descido tanto que o leito do Tejo estava sobre eles.Ao pé da escada havia uma cela e depois uma biblioteca e depois uma espécie de gabinete com instrumentos mágicos.Examinavam os livros,e nisso estavam quando entraram dois homens com uma carta para o deão,escrita pelo bispo seu tio,na qual lhe fazia saber que estava muito doente e que,se quisesse encontrá-lo vivo,não demorasse.Ao deão contrariaram muito essas novas,primeiro pela enfermidade do tio,depois por ser obrigado a interromper os estudos.Optou por escrever uma desculpa e mandou-a ao bispo.Três dias depois,chegaram alguns homens de luto com outras cartas para o deão,nas quais se lia ter o bispo falecido,que estavam elegendo o sucessor e esperavam ,com a graça de Deus,que fosse ele o eleito.Diziam também que não se incomodasse em voltar,posto que parecia muito melhor que o elegessem em sua ausência.
Passados dez dias,vieram dois escudeiros muito bem vestidos,que se atiraram a seus pés,beijaram-lhe as mãos e o saudaram como bispo.Quando Dom Illán viu essas coisas.dirigiu-se com muita alegria ao novo prelado e lhe disse que agradecia ao Senhor que tão boas novas chegassem à sua casa.Depois pediu-lhe o decanato vacante para um de seus filhos.O bispo fez-lhe saber que havia reservado o decanato para seu próprio irmão,mas que sempre havia determinado favorecê-lo,e que partissem juntos para Santiago.
Foram para Santiago os três,onde os receberam com honrarias.Seis meses depois,recebeu o bispo enviados do Papa qque lhe oferecia o arcebispado de Tolosa,deixando em suas mãos a nomeação do sucessor..Quando Dom Illán soube disso,recordou-lhe a antiga promessa e pediu-lhe o título para seu filho.O arcebispo fez-lhe saber que o havia reservado para seu próprio tio,irmão de seu pai,mas que havia determinado favorecê-lo,e que partissem juntos para Tolosa.Dom Illán não teve outro remédio senão concordar.
Foram para Tolosa os três,onde os receberam com honrarias e missas.Dois anos depois,recebeu o arcebispo enviados do Papa que lhe oferecia o capelo de Cardeal,deixando em suas mãos a nomeação do sucessor.Quando Dom Illán soube disso,recordou-lhe a antiga promessa e pediu-lhe esse título para seu filho.O Cardeal fez-lhe saber que havia reservado o arcebispado para seu próprio tio,irmão de sua mãe,mas que havia determinado favorece-lo,e que partissem juntos para Roma..Foram para Roma os três,onde os receberam com honrarias,missas e procissões.Quatro anos depois morria o Papa e nosso Cardeal foi eleito para o papado pelos demais.Quando Dom Illán soube disso,beijou os pés de Sua Santidade,recordou-lhe a antiga promessa e pediu-lhe o cardinalato para seu filho.O Papa ameaçou-o com o cárcere,dizendo-lhe que bem sabia ele que não era mais do que um bruxo e que em Toledo tinha sido professor da artes mágicas.O miserável Dom Illán disse que voltaria à Espanha e lhe pediu alguma coisa para comer no caminho.O Papa não acedeu.Foi quando Dom Illán(cujo rosto havia remoçado de modo estranho)disse com uma voz sem tremor:
-Pois terei que comer sozinho as perdizes que para esta noite encomendei.
A criada aprsentou-se a Dom Illán e este deu ordem para que as assasse.A essas palavras o Papa encontrou-se na cela subterrânea em Toledo,apenas Deão de Santiago,e tão envergonhado de sua ingratidão que não atinava como desculpar-se.Dom Illán disse que bastava essa prova,negou-lhe sua parte nas perdizes e o acompanhou à rua,onde lhe desejou boa viagem e se despediu com grande cortesia.
(De 'História Universal da Infâmia' -1935)-Tradução de Alexandre Eulálio.

04
Mar 09
publicado por aquiagorasempre, às 12:17link do post | comentar | ver comentários (2) | |

Os anjos comunicaram-me que,quando faleceu Melanchton,foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que havia ocupado na terra.(A quase todos recém-vindos à Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam não terem morrido.)Os objetos domésticos eram iguais;a mesa;a escrivaninha com suas gavetas,a biblioteca.Quando Melanchton despertou nesse domicílio,retornou a suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver,e escreveu durante alguns dias sobre a justificativa pela fé.Como era seu costume,não disse palavra sobre a caridade.Os anjos notaram essa omissão e mandaram algumas pessoas interrogarem-no.Melanchton declarou:"Já demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e para que para ingressar no céu basta ter fé."Essas coisas dizia-lhes com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu.Quando os anjos ouviram esse discurso,abandonaram-no.

Poucas semanas depois,os móveis começaram a afantasmar-se até se tornarem invisíveis,salvo a poltrona,a mesa,as folhas de papel e o tinteiro.Além disso,as paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo.Sua própria roupa já estava muito mais ordinária.Contudo,ele continuava escrevendo,mas,como persistia na negação da caridade,transladaram-no para uma oficina subterrânea onde havia outros teólogos como ele.Aí esteve alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese;permitiram-lhe voltar.Sua roupa era de couro sem curtir,mas tentou imaginar que os fatos anteriores haviam sido mera alucinação e continuou elevendo a fé e denegrindo a caridade.Num entardecer sentiu frio.Então percorreu a casa e percebeu que os demais aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na terra.Um estava repleto de instrumentos desconhecidos;outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar nele;outro não tinha mudado,mas as janelas e portas davam para grandes dunas.O cômodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sapiente quanto ele.Essa adoração agradou-lhe,mas como algumas dessas pessoas não tinham rosto e outras pareciam estar mortas,acabou se aborrecendo e desconfiando delas.Então determinou-se escrever um elogio da caridade,mas as páginas escritas hoje apareciam amanhã apagadas.Isso lhe aconteceu porque as compunha sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta,porém tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido.Para faze-las crer que estava no céu,combinou com um bruxo do cômodo dos fundos,e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade.Apenas as visitas se retiravam,reapareciam a pobreza e a cal,e às vezes um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no até as dunas e que agora é como se fosse criado dos demônios.

(Tradução de Alexandre Eulálio)

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